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sexta-feira, novembro 10

Ele disse: “Um dia a gente ainda vai se encontrar… Lá na frente.”
E então eles seguiram por caminhos distintos. Ele foi para lá, ela para cá. Nenhuma destas rotas incluía pontos em comum e eles sabiam que seria desse jeito – irremediavelmente.
As festas que ela frequentava nunca eram as mesmas que ele curtia com seus amigos. Estes, aliás, também não combinavam mais. Talvez até tivessem um ou outro adicionado no Facebook, mas não se encontravam pessoalmente há eras.
Os estudos dele não tinham a ver com os dela. Ele estava nas Humanas, ela lá para as bandas das Exatas. Não havia convenção, congresso, curso extracurricular, palestra ou viagem que fosse igual. Era até um pouco estranho, ela agora parava para notar, como os opostos se atraíam tanto.
Porque, na verdade, um dia eles se encontraram – mesmo com rotinas e jeitos tão diferentes, não? Isso, de certa forma, a fazia pensar que trombariam de novo, sim.
E então as coisas seriam diferentes. Não havia nenhum ímã que pudesse ligá-los agora e ela sabia que por algum tempo tudo continuaria desta forma. O elo restante seria um fiozinho minúsculo e quase invisível, que passava de um coração para o outro e ficaria como um fio suspenso, que podia ser puxado para lá e para cá e esticado por distâncias intercontinentais, mas que permaneceria vivo.
E, quando finalmente eles se encontrassem mais uma vez, depois de muito tempo, de algum amadurecimento e de acontecimentos importantes, saberiam que a previsão que ele fez naquele adeus se confirmou apenas por conta do sentimento comum, que resistiu. Só isso.

domingo, outubro 29

Posso encontrar pelo corpo as marcas de todos aqueles que não me amaram quando eu precisava. Os sinais daqueles que de algum modo me feriram, destrataram, rejeitaram. Sim, meu corpo é um mapa de desamores. E nenhum desses desamores precisou me tocar para deixar digitais. É o não-toque que marca mais, que machuca mais fundo, que lacera da pele ao osso.

As marcas que eles deixaram eu mesmo fiz. Foi sempre assim. Cada vez que alguém não me achava digno, eu não me achava também. Cada vez que alguém me odiava, eu me odiava também. Cada vez que me abandonavam, eu me abandoava também. Desde o berço. A primeira marca, desenhada na perna esquerda.

Eu posso ler cada uma delas. Posso passar os dedos e tocar na minha pele as rejeições alheias. E se posso tocá-las, também posso apagá-las. Eu percebi, depois de 26 anos, que todo amor que eu procuro eu já tenho. Eu já tenho. Há alguém que esteve comigo nesses momentos todos, lambendo feridas, segurando minhas mãos, desmanchando maldades alheias. Houve alguém comigo naquela festa, naquele abraço de despedida. Houve alguém comigo naquela volta da escola, naquela noite sem sono, naquela cidade imunda. Cada vez que me feriram, ele esteve lá. Ele chorou comigo e me fez sorrir. Muitas, muitas vezes. 

Sim, essa é uma declaração de amor. Uma definitiva. Porque, finalmente, eu percebi que ele estará comigo até o fim. Os outros todos passam. Pessoas se vão, às vezes batendo as portas, às vezes batendo as botas. Mas ele não. Não importa o que eu faça. Não importa o que eu diga. Ele vai estar comigo. Ele vai precisar de mim. Estamos juntos agora, e isso é nosso final feliz. O amor é isso. É estar junto, é entender, é zelar. E eu quero fazer isso por ele, já que ele o fez por mim. Eu, que sempre o odiei, quero pedir perdão. Perdão pelas marcas, pelo sangue todo, pelas vezes em que o tratei como os outros lhe tratavam.

Perdão, porque eu levei 26 anos para entender que a pessoa da qual eu dependo e de quem eu nunca vou me afastar sou eu mesmo. Eu mesmo. Todo esse tempo e a resposta estava no espelho. 

Eu posso ser abandonado ou abandonar quem for. Eu posso ser rejeitado ou rejeitar quem for. Eu posso ser humilhado ou humilhar quem for. Mas eu sempre estarei comigo. Até o fim. E como pude odiar por tanto tempo alguém assim?

Hoje eu passei a mão pelo meu corpo, pelo meu mapa de desamores e consolei a mim mesmo. Depois delineei à caneta um novo sentido para cada traço. Se eu não amar quem está sempre junto comigo, por benção ou maldição, como vou me livrar do vazio que sempre senti? Sim, porque amor e vazio não podem coexistir em mim. O vazio sempre foi por falta de amor. Do amor mais fundamental. Do meu amor por mim. Fui eu quem me trouxe até aqui. Sou eu que me levarei de agora em diante. Então como não me amar? Como não me sentir seguro sabendo que não, que eu nunca vou me abandonar? Minha história sempre foi feita de abandonos. Entendem, então, porque eu preciso tanto dessa segurança que só agora encontrei?

Eu não sei de outro desbravamento que precisasse de uma navegação tão longa. Vinte e seis anos. Finalmente eu gritei “Terra à vista!”. Vinte seis anos. E só agora eu descobri que existo. Está na hora, portanto, de traçar novos mapas. De desamores nunca mais. Afinal, ninguém pode ser tão importante assim a ponto de mudar o que eu passei a sentir por mim.


“Estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que me aconteceu. Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de não a saber como viver, vivi uma outra? A isso quereria chamar desorganização, e teria a segurança de me aventurar, porque saberia depois para onde voltar: para a organização anterior. A isso prefiro chamar desorganização pois não quero me confirmar no que vivi – na confirmação de mim eu perderia o mundo como eu o tinha, e sei que não tenho capacidade para outro.
Clarice Lispector- A paixão segundo GH

sábado, outubro 28

Não passam as dores, também não passam as alegrias. Tudo o que nos fez feliz ou infeliz serve pra montar o quebra-cabeça da nossa vida, um quebra-cabeça de cem mil peças. Aquela noite que você não conseguiu parar de chorar, aquele dia que você ficou caminhando sem saber para onde ir, aquele beijo cinematográfico que você recebeu, aquela visita surpresa que ela lhe fez, o parto do seu filho, a bronca do seu pai, a demissão injusta, o acidente que lhe deixou cicatrizes, tudo isso vai, aos pouquinhos, formando quem você é. Não há nenhuma peça que não se encaixe. Todas são aproveitáveis. Como são muitas, você pode esquecer de algumas, e a isso chamamos de "passou". Não passou. Está lá dentro, meio perdida, mas quando você menos esperar, ela será necessária para você completar o jogo e se enxergar por inteiro.


Martha Medeiros
"Ouça com o coração quando quase lhe parecer silêncio: é o meu amor falando baixinho só pra não acordar o seu medo de amar."

(Ana Jácomo)


E so cuidar do jardim que ele floresce...

quinta-feira, outubro 26

Fazendo uma coisa hoje que a muito muito tempo não fazia: traduzindo sentimentos em palavras. Devia estar acostumada já, sempre quando o mar de dentro se mostra agitado, já aviso: ondas fortes navegantes, bandeira vermelha! Antes de transbordar, é hora de escrever. Sempre tive isso, mania de tentar parecer forte e não encomodada com certas situações, besteira menosprezar aquilo que eu sinto, como se os outros fossem mais importantes e sentissem mais verdadeiramente as coisas do que eu, besteira bobeira. Ou apenas, vergonha. Não de demonstrar, mas de parecer b o b a. Falei. É que é dificil falar, mostrar, demonstrar, desmascarar as coisas assim, sem saber a reação das outras pessoas. Um eu te amo precipitado; Você é o melhor amigo do mundo; A melhor mãe do mundo; O melhor pai do mundo; Um irmão como poucos; É difícil falar. Eu S I N T O a tua falta. Eu S I N T O saudade. Dos beijos, do cheiro, dos abraços, da voz, das risadas, das mãos, dos olhos, da boca, até das brigas. Saudade de situações. S A U D A D E! Em letras maiusculas, negrito e sublinhado, com exclamação no final – de intensidade –, e saudade é aquele sentimento que a gente só confessa assim, escancaradamente, pra’quela poça de lagrimas que se forma no travesseiro, antes de dormir. Mas saudade também, acima de tudo, é um olhar pela janela e perceber que a vida segue, vida-louca-vida como diria Cazuza. Sinal de que aquilo que foi vivido valeu a pena, e marcou. Saudade é aquela vontade de querer de volta, de querer por perto, ontem, hoje, amanhã e sempre. Normal é sentir falta daquilo que foi bom, anormal é não sentir nada. Saudade

Larissa Miranda

 

MARIA BETHANIA " EU QUERO COLO "


Queria saber escrever sobre coisas menos clichês, sobre sentimentos menos passados, pessoas novas, atitudes diferentes, pensamentos inusitados. Mas aí… Ao olhar no espelho e deparar-me com a imagem ali refletida, dei por conta de que não existe nada melhor do que sentir orgulho, orgulho de si mesma. Saber que seus pensamentos ultrapassados, conservadores e por muitos considerados bitolados, são puros. Saber que a sua beleza é mais do que uma bunda e dois peitos. Saber que quando alguém precisa de alguém, é pra você que liga e é com as suas palavras de amparo que conta.  Escutar que seu abraço conforta, que até seu silêncio satisfaz. Poder sentir-se querido e bem-vindo nos lugares e perceber que com o tempo – esse é rei –, perceber que com o tempo, você passa a atrair pessoas exatamente assim pra perto, e tudo e todos que vão ficando é aquilo e aqueles que alcançaram um grau mais profundo e significativo, seja no sentido que for. Perceber que as coisas demoram muito mais pra machucar, não porque você se tornou frio, mas porque cresceu e está forte. Porque aprendeu qual é o real significado da palavra valor, e conjuga o verbo dar direitinho em se tratando de família, amigos e felicidade. Porque a vida vai te mostrar que o importante não é o quão forte você bate, mas sim, quanta porrada você aguenta. Vai te ensinar o significado de respeitar pai e mãe, mesmo que você não os tenha. Que amigos mesmo, de verdade, você conta nos dedos, e não enche uma mão. Que amizade é uma via de mão dupla. Que algumas raras pessoas fariam por você aquilo que você espera que alguém faça por você. Que felicidade não é roupa de marca e tênis do momento, taças de champagne e alguns beijos sem significado, felicidade é se amar por dentro, se sentir amado e saber corresponder, que felicidade é mais do que carne. Felicidade é não mentir. Mentira é uma felicidade instantânea, que vai doer muito mais depois. Que felicidade mais do que isso é olhar pra trás e se sentir bem pelo o que foi vivido, olhar pro agora e sentir orgulho, olhar pra frente e sentir coragem, coragem para acima de qualquer coisa saber seguir, seguir em frente é a ordem, e isso é esperançosamente lindo, por mais que as coisas mudem, o importante é você não mudar e se mudar, que faça para melhor.

quarta-feira, outubro 4

Let It Go (Disney's "Frozen") Vivaldi's Winter - The Piano Guys


" Quando fui ao teu encontro

levei no decote

um rebento de alecrim

para que me avistasses

pelo aroma. "



Graça Pires


Encontro de Maria Bethânia com Mia Couto








''Poderíamos, com mais frequência,

tentar deixar a vida em paz para desembrulhar suas flores no tempo dela,

no tempo delas, e, em alguns momentos,

nem desembrulhar.

Apesar da nossa cuidadosa aposta nas sementes,

algumas simplesmente não vingam e isso não significa que a vida,

por algum motivo, está se vingando de nós.

Há muito mais jardim para ser desembrulhado.

( . . . )

É fácil lidar com isso? Não é não.

Nem um pouco.

Esse é um dos capítulos mais difíceis do livro-texto e do caderno de exercícios:

o aprendizado do respeito ao sábio tempo das coisas.''

**Ana Jácomo**

terça-feira, outubro 3





“Pode invadir ou chegar com delicadeza, mas não tão devagar que me faça dormir.


Não grite comigo, tenho o péssimo hábito de revidar.

Acordo pela manhã com ótimo humor mas… permita que eu escove os dentes primeiro.

Toque muito em mim, principalmente nos cabelos e minta sobre minha nocauteante beleza.

Tenho vida própria, me faça sentir saudades, conte algumas coisas que me façam rir, mas não conte piadas e nem seja preconceituoso, não perca tempo, cultivando este tipo de herança de seus pais.

Viaje antes de me conhecer, sofra antes de mim para reconhecer-me um porto, um albergue da juventude. Eu saio em conta, você não gastará muito comigo.

Acredite nas verdades que digo e também nas mentiras, elas serão raras e sempre por uma boa causa. Respeite meu choro, me deixe sozinha, só volte quando eu chamar e, não me obedeça sempre que eu também gosto de ser contrariada. (Então fique comigo quando eu chorar, combinado?).

Seja mais forte que eu e menos altruísta! Não se vista tão bem… gosto de camisa para fora da calça, gosto de braços, gosto de pernas e muito de pescoço. Reverenciarei tudo em você que estiver a meu gosto: boca, cabelos, os pelos do peito e um joelho esfolado, você tem que se esfolar às vezes, mesmo na sua idade.

Leia, escolha seus próprios livros, releia-os. Odeie a vida doméstica e os agitos noturnos.

Seja um pouco caseiro e um pouco da vida, não de boate que isto é coisa de gente triste.

Não seja escravo da televisão, nem xiita contra. Nem escravo meu, nem filho meu, nem meu pai.

Escolha um papel para você que ainda não tenha sido preenchido e o invente muitas vezes.

Me enlouqueça uma vez por mês mas, me faça uma louca boa, uma louca que ache graça em tudo que rime com louca: loba, boba, rouca, boca…

Goste de música e de sexo. Goste de um esporte não muito banal.

Não invente de querer muitos filhos, me carregar pra a missa, apresentar sua familia… isso a gente vê depois… se calhar…

Deixa eu dirigir o seu carro, que você adora.

Quero ver você nervoso, inquieto, olhe para outras mulheres, tenha amigos e digam muitas bobagens juntos. Não me conte seus segredos… me faça massagem nas costas.

Não fume, beba, chore, eleja algumas contravenções.

Me rapte!

Se nada disso funcionar…experimente me amar!”

**Martha Medeiros**

Estou cansada de mentiras, de realidade, de telefone mudo e de músicas sem letra.(...)
(...)Me deixa ser egoísta. Me deixa fazer você entender que eu gosto de mim e quero ser preservada. Me deixa de fora de suas mentiras e dessa conversa fiada. Eu sou uma espécie quase em extinção: eu acredito nas pessoas. E eu quase acredito em você. Não precisa gostar de mim se não quiser. Mas não me faça acreditar que é amor, caso seja apenas derivado. Não me diga nada. (Ou me diga tudo). Não me olhe assim, você diz tanta coisa com um olhar. E olhar mente, eu sei! E eu sei por que aprendi. Também sei mentir das formas mais perversas e doces possíveis. (Sabia?) Mas meu coração está rouco agora. GRAVE! Você percebe? Escuta só como ele bate. O tumtumtum não é mais o mesmo.

Fernanda de Mello
Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante. A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim. Para isso, só sendo louco. Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças. Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta. Não quero só ombro e colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: Metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos. Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos nem chatos. QuerCriança, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois vendo-os loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que “normalidade” é uma ilusão imbecil e estéril."
o-os metade infância e outra metade velhice!

(Oscar Wilde)