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segunda-feira, abril 16

Poema O Teu Riso de Pablo Neruda recitado por Luma Carvalho


Poema O Teu Riso de Pablo Neruda recitado por Luma Carvalho


Poema O Teu Riso de Pablo Neruda recitado por Luma Carvalho


Poema O Teu Riso de Pablo Neruda recitado por Luma Carvalho


Poema O Teu Riso de Pablo Neruda recitado por Luma Carvalho


Poema O Teu Riso de Pablo Neruda recitado por Luma Carvalho


sexta-feira, novembro 10

Ele disse: “Um dia a gente ainda vai se encontrar… Lá na frente.”
E então eles seguiram por caminhos distintos. Ele foi para lá, ela para cá. Nenhuma destas rotas incluía pontos em comum e eles sabiam que seria desse jeito – irremediavelmente.
As festas que ela frequentava nunca eram as mesmas que ele curtia com seus amigos. Estes, aliás, também não combinavam mais. Talvez até tivessem um ou outro adicionado no Facebook, mas não se encontravam pessoalmente há eras.
Os estudos dele não tinham a ver com os dela. Ele estava nas Humanas, ela lá para as bandas das Exatas. Não havia convenção, congresso, curso extracurricular, palestra ou viagem que fosse igual. Era até um pouco estranho, ela agora parava para notar, como os opostos se atraíam tanto.
Porque, na verdade, um dia eles se encontraram – mesmo com rotinas e jeitos tão diferentes, não? Isso, de certa forma, a fazia pensar que trombariam de novo, sim.
E então as coisas seriam diferentes. Não havia nenhum ímã que pudesse ligá-los agora e ela sabia que por algum tempo tudo continuaria desta forma. O elo restante seria um fiozinho minúsculo e quase invisível, que passava de um coração para o outro e ficaria como um fio suspenso, que podia ser puxado para lá e para cá e esticado por distâncias intercontinentais, mas que permaneceria vivo.
E, quando finalmente eles se encontrassem mais uma vez, depois de muito tempo, de algum amadurecimento e de acontecimentos importantes, saberiam que a previsão que ele fez naquele adeus se confirmou apenas por conta do sentimento comum, que resistiu. Só isso.

domingo, outubro 29

Posso encontrar pelo corpo as marcas de todos aqueles que não me amaram quando eu precisava. Os sinais daqueles que de algum modo me feriram, destrataram, rejeitaram. Sim, meu corpo é um mapa de desamores. E nenhum desses desamores precisou me tocar para deixar digitais. É o não-toque que marca mais, que machuca mais fundo, que lacera da pele ao osso.

As marcas que eles deixaram eu mesmo fiz. Foi sempre assim. Cada vez que alguém não me achava digno, eu não me achava também. Cada vez que alguém me odiava, eu me odiava também. Cada vez que me abandonavam, eu me abandoava também. Desde o berço. A primeira marca, desenhada na perna esquerda.

Eu posso ler cada uma delas. Posso passar os dedos e tocar na minha pele as rejeições alheias. E se posso tocá-las, também posso apagá-las. Eu percebi, depois de 26 anos, que todo amor que eu procuro eu já tenho. Eu já tenho. Há alguém que esteve comigo nesses momentos todos, lambendo feridas, segurando minhas mãos, desmanchando maldades alheias. Houve alguém comigo naquela festa, naquele abraço de despedida. Houve alguém comigo naquela volta da escola, naquela noite sem sono, naquela cidade imunda. Cada vez que me feriram, ele esteve lá. Ele chorou comigo e me fez sorrir. Muitas, muitas vezes. 

Sim, essa é uma declaração de amor. Uma definitiva. Porque, finalmente, eu percebi que ele estará comigo até o fim. Os outros todos passam. Pessoas se vão, às vezes batendo as portas, às vezes batendo as botas. Mas ele não. Não importa o que eu faça. Não importa o que eu diga. Ele vai estar comigo. Ele vai precisar de mim. Estamos juntos agora, e isso é nosso final feliz. O amor é isso. É estar junto, é entender, é zelar. E eu quero fazer isso por ele, já que ele o fez por mim. Eu, que sempre o odiei, quero pedir perdão. Perdão pelas marcas, pelo sangue todo, pelas vezes em que o tratei como os outros lhe tratavam.

Perdão, porque eu levei 26 anos para entender que a pessoa da qual eu dependo e de quem eu nunca vou me afastar sou eu mesmo. Eu mesmo. Todo esse tempo e a resposta estava no espelho. 

Eu posso ser abandonado ou abandonar quem for. Eu posso ser rejeitado ou rejeitar quem for. Eu posso ser humilhado ou humilhar quem for. Mas eu sempre estarei comigo. Até o fim. E como pude odiar por tanto tempo alguém assim?

Hoje eu passei a mão pelo meu corpo, pelo meu mapa de desamores e consolei a mim mesmo. Depois delineei à caneta um novo sentido para cada traço. Se eu não amar quem está sempre junto comigo, por benção ou maldição, como vou me livrar do vazio que sempre senti? Sim, porque amor e vazio não podem coexistir em mim. O vazio sempre foi por falta de amor. Do amor mais fundamental. Do meu amor por mim. Fui eu quem me trouxe até aqui. Sou eu que me levarei de agora em diante. Então como não me amar? Como não me sentir seguro sabendo que não, que eu nunca vou me abandonar? Minha história sempre foi feita de abandonos. Entendem, então, porque eu preciso tanto dessa segurança que só agora encontrei?

Eu não sei de outro desbravamento que precisasse de uma navegação tão longa. Vinte e seis anos. Finalmente eu gritei “Terra à vista!”. Vinte seis anos. E só agora eu descobri que existo. Está na hora, portanto, de traçar novos mapas. De desamores nunca mais. Afinal, ninguém pode ser tão importante assim a ponto de mudar o que eu passei a sentir por mim.


“Estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que me aconteceu. Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de não a saber como viver, vivi uma outra? A isso quereria chamar desorganização, e teria a segurança de me aventurar, porque saberia depois para onde voltar: para a organização anterior. A isso prefiro chamar desorganização pois não quero me confirmar no que vivi – na confirmação de mim eu perderia o mundo como eu o tinha, e sei que não tenho capacidade para outro.
Clarice Lispector- A paixão segundo GH

sábado, outubro 28

Não passam as dores, também não passam as alegrias. Tudo o que nos fez feliz ou infeliz serve pra montar o quebra-cabeça da nossa vida, um quebra-cabeça de cem mil peças. Aquela noite que você não conseguiu parar de chorar, aquele dia que você ficou caminhando sem saber para onde ir, aquele beijo cinematográfico que você recebeu, aquela visita surpresa que ela lhe fez, o parto do seu filho, a bronca do seu pai, a demissão injusta, o acidente que lhe deixou cicatrizes, tudo isso vai, aos pouquinhos, formando quem você é. Não há nenhuma peça que não se encaixe. Todas são aproveitáveis. Como são muitas, você pode esquecer de algumas, e a isso chamamos de "passou". Não passou. Está lá dentro, meio perdida, mas quando você menos esperar, ela será necessária para você completar o jogo e se enxergar por inteiro.


Martha Medeiros
"Ouça com o coração quando quase lhe parecer silêncio: é o meu amor falando baixinho só pra não acordar o seu medo de amar."

(Ana Jácomo)


E so cuidar do jardim que ele floresce...

quinta-feira, outubro 26

Fazendo uma coisa hoje que a muito muito tempo não fazia: traduzindo sentimentos em palavras. Devia estar acostumada já, sempre quando o mar de dentro se mostra agitado, já aviso: ondas fortes navegantes, bandeira vermelha! Antes de transbordar, é hora de escrever. Sempre tive isso, mania de tentar parecer forte e não encomodada com certas situações, besteira menosprezar aquilo que eu sinto, como se os outros fossem mais importantes e sentissem mais verdadeiramente as coisas do que eu, besteira bobeira. Ou apenas, vergonha. Não de demonstrar, mas de parecer b o b a. Falei. É que é dificil falar, mostrar, demonstrar, desmascarar as coisas assim, sem saber a reação das outras pessoas. Um eu te amo precipitado; Você é o melhor amigo do mundo; A melhor mãe do mundo; O melhor pai do mundo; Um irmão como poucos; É difícil falar. Eu S I N T O a tua falta. Eu S I N T O saudade. Dos beijos, do cheiro, dos abraços, da voz, das risadas, das mãos, dos olhos, da boca, até das brigas. Saudade de situações. S A U D A D E! Em letras maiusculas, negrito e sublinhado, com exclamação no final – de intensidade –, e saudade é aquele sentimento que a gente só confessa assim, escancaradamente, pra’quela poça de lagrimas que se forma no travesseiro, antes de dormir. Mas saudade também, acima de tudo, é um olhar pela janela e perceber que a vida segue, vida-louca-vida como diria Cazuza. Sinal de que aquilo que foi vivido valeu a pena, e marcou. Saudade é aquela vontade de querer de volta, de querer por perto, ontem, hoje, amanhã e sempre. Normal é sentir falta daquilo que foi bom, anormal é não sentir nada. Saudade

Larissa Miranda